Enfermeiras de São Sebastião compartilham experiências vividas durante a tragédia
- caicaraexpressao

- 4 de abr. de 2023
- 2 min de leitura
A enfermeira da Diretoria de Atenção Básica da Secretaria de Saúde (SESAU)
de São Sebastião, Aline Cardoso Utescher Intrieri, acompanhada por
profissionais da Diretoria de Especialidades e do Hospital de Clínicas de São
Sebastião – Costa Sul (HCSS - Costa Sul), deu testemunho da experiência
vivida durante a tragédia provocada pelas fortes chuvas, em fevereiro, durante
o 11º Simpósio Internacional de Enfermagem do Instituto Israelita de Ensino e
Pesquisa Albert Einstein. O evento foi no Auditório Moise Safra, no bairro
Morumbi, em São Paulo, no último dia 29.

Aline conta que participar do simpósio e relembrar os primeiros dias da tragédia
foi emocionante. “Chorei muito durante o relato; fomos aplaudidos de pé.” Ela
explica que começou a trabalhar para a Prefeitura de São Sebastião em
janeiro, na Unidade de Saúde da Família (USF) de Barra do Sahy, portanto, era
recém-admitida quando tudo aconteceu. “Trabalhei durante doze anos no
SAMU de Santos e a experiência em urgência e emergência ajudou demais
nos atendimentos”, diz.
A enfermeira mora em Bertioga e se desloca a São Sebastião todos os dias
para trabalhar. Como a calamidade também atingiu Bertioga, ela ficou
temporariamente isolada. “Estava tensa porque minha equipe estava toda
atuando e eu não conseguia chegar para ajudar”, conta.
“Somente na segunda-feira tive a informação, pela Defesa Civil, de que a
estrada de acesso ao morro da Petrobrás, em Bertioga, estava liberada. Fui de
carro, juntamente com meu esposo, que também é enfermeiro e atuou como
voluntário, até Juquehy, e de lá seguimos de barco à Vila Sahy.”
Ela relatou que o mar estava muito revolto, foram orientados a não embarcar,
mas resolveram arriscar. “Fomos com uma mala de insumos, pois não
sabíamos a situação que iríamos encontrar. O mar de fato estava agitado e, na
arrebentação, fomos lançados alto, caímos sentados no barco e ficamos com
dor na lombar durante dias”, conta. “Também nos molhamos com a água do
mar já misturada com a lama da enchente e ficamos em contato com essa
água por horas.”
Aline explica que trabalhou durante 30 horas seguidas, até conseguirem
montar uma escala para atender toda a população. “De imediato fomos ao
Instituto Verdescola, mas lá a situação estava controlada, e uma médica nos
avisou que tinha muita gente precisando de ajuda na escola Henrique Tavares.
Lá estava caótico: tinha quatro médicos voluntários atendendo cerca de 700
pessoas. Eles estavam como turistas na Barra do Sahy e a casa em que
estavam desmoronou, aí arrombaram a escola e começaram a prestar os
primeiros atendimentos”, diz.
Continuando o testemunho, a enfermeira contou que fizeram uma escala de 12
por 12 horas, a fim de manter os atendimentos durante 24h, e ela, o esposo e a
Dra. Luciana ficaram com o período noturno. “Acabávamos fazendo mais que
isso, uma média de 18h de plantão e mais um tempo para resolver outras
questões, dormindo cerca de uma hora e meia a duas horas por dia na primeira
semana. Foi muito exaustivo.”
Aline ficou durante três semanas na Barra do Sahy, voltando para a casa
apenas nos finais de semana. Somente na quarta semana conseguiu retomar a
rotina em Bertioga, viajando todos os dias. “Ainda estamos diante das
consequências do desastre, tentando reerguer a comunidade, a cidade”, conta.
Ela finaliza dizendo que a população não ficou desassistida em nenhum
momento e que sua equipe foi incansável. “Tenho funcionários que perderam
suas casas e estavam lá trabalhando, guardaram a própria dor ‘no bolso’ e
foram trabalhar. Não tinha como eu agir de outra forma, a não ser dar o meu
melhor com eles”, diz.




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