
O placar do início da apuração engana
Por Fabiano Grisolia - GR Data
Em 30 de outubro de 2022, às 17h15, o TSE tinha apurado 1,5% das seções do segundo turno. O placar mostrava Jair Bolsonaro com 56,4% dos votos válidos. Lula venceu com 50,9%, e o placar só virou às 18h43, com dois terços das seções apuradas.
As primeiras urnas não estavam erradas. Eram só as primeiras. Elas não chegam em ordem aleatória: naquela noite, com meio por cento apurado, o exterior já tinha mais da metade das suas urnas contadas, e o Nordeste praticamente nenhuma. Em 2014, Aécio Neves liderou o placar até as 17h34, e Dilma Rousseff venceu.
Neste domingo, Flávio Bolsonaro e Lula disputam um segundo turno que começa mais apertado do que o de 2022: 47,0% a 45,2% no primeiro turno. Numa disputa assim, o placar do começo da noite é a informação menos confiável que existe.
Há um jeito melhor de ler a apuração. A seção eleitoral é a mesma nos dois turnos, com praticamente os mesmos eleitores. Se uma seção deu 60% a um candidato no primeiro turno e dá 57% no segundo, ali o voto andou três pontos para o outro lado, chegue ela cedo ou tarde. Medindo esse movimento cidade a cidade e aplicando-o às seções que faltam, dá para projetar o resultado final muito antes do placar.
Foi o que fizemos no painel que a GR Data em parceria com o Jornal Expressão Caiçara colocaram no portal do Expressão Caiçara em https://www.expressaocaicara.com/. Para saber se o método funciona, refizemos as três últimas eleições presidenciais com o mesmo código, com os boletins reais do TSE, na ordem em que chegaram. Em 2022, a projeção apontou Lula com 1,5% das seções, às 17h15. Em 2014, apontou Dilma com 1%, às 17h13. Nas três eleições, nunca apontou o vencedor errado, e com 20% das seções o erro ficou abaixo de um décimo de ponto.
A projeção só indica um vencedor quando a faixa provável inteira fica de um lado do empate, e nunca antes de 1% das seções. E só usa boletim que confere: antes de entrar na conta, cada um passa pela cadeia de integridade publicada pelo TSE, com certificado e assinatura digital da urna. O que não confere fica de fora e aparece listado.
Além da projeção, o painel mostra o placar oficial a cada 20 segundos, com mapas do Brasil por estado e de São Paulo por cidade, os seis segundos turnos de governador, onde a diferença está andando por região e estado, e para onde foram os eleitores dos demais candidatos. Com a zona e a seção do título, o eleitor compara a própria urna nos dois turnos. E pode receber avisos no navegador.
A ferramenta tem limites. No começo da noite, com poucas seções e muitas cidades sem dados próprios, a faixa provável é larga, e se a disputa estiver dentro dela o painel não aponta ninguém. Esse silêncio também é informação: quer dizer que a eleição ainda está aberta. Para uma campanha, entender onde o voto andou a favor e onde andou contra, comparado com o primeiro turno, é o começo do diagnóstico para a próxima eleição.
Para quem acompanha a noite, sugiro quatro perguntas. O placar mostra o país ou só as regiões que chegaram primeiro? Nas mesmas seções, o voto andou para que lado desde o primeiro turno? A faixa provável inteira já está de um lado? Onde a diferença está andando, e o que isso diz sobre a próxima eleição?
Em 2022, quem olhava só o placar passou uma hora e meia com a impressão errada. A informação certa estava nas primeiras urnas. Domingo, a partir das 17h, ela estará no painel.
Fabiano Grisolia é especialista em marketing eleitoral, diretor da Griso Comunicação - instagram.com/grisocomunicacao/. A projeção é independente e não é resultado oficial; o resultado oficial é o do TSE. Os números de 2014, 2018 e 2022 vêm da reconstituição com os boletins de urna do TSE.





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